terça-feira, fevereiro 28, 2006

A minha vida dava um filme do Brett Ratner

Hoje vinha a conduzir o meu Colt na A24, a subir da Régua para Bigorne. Quase no topo da serra do Montemuro toca o telemóvel (já não tocava há dois dias). O número não está disponível. Por segundos pensei na senhora do tal empréstimo que nunca fiz, mas atendi.

Do outro lado oiço uma senhora a falar em inglês com um sotaque carregado, muito próximo do indiano, mas provavelmente não o era:
- "Sorry, this is from a consulting company. Is this the phone of Rui Manuel?"
- "Yes!" – disse eu a pensar quem seria que me tentava enganar àquela hora num feriado. Só podia ser de Inglaterra, porque lá não era feriado... A Gisela? Decidi colaborar na brincadeira.
- "Mr. Rui Manuel, I found your CV on the internet and I am phoning to see if you are considering a job in UK." – continuou a senhora do outro lado.
Bem, não me parece brincadeira. Aliás porque a Gisela não conseguia imitar tão bem aquele sotaque.
- "No! Not at the moment! Thank you!" – disse eu.
- "Ok! I just decide to phone to check it out before sending you any job proposition. Thank you anyway." – e desligou.

Pousei o telefone e continuei a conduzir de volta a casa, pensando o que aconteceria se tivesse dito que sim...

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Curling

Já vos disse que gosto de ver Curling?

Vivam os Canadianos e as Suecas!

Premiar o mérito

A semana passada no caderno emprego do jornal Expresso chamava a atenção na capa, com "Meritocracia – lugar à competência", para um artigo que questionava, logo no início "Em Portugal impera a cultura da meritocracia ou ainda prevalece o factor 'cunha'?".

O artigo não diz nada de novo, aliás é apenas a colagem mal feita de uma série de dados e declarações de uns tantos professores. Gostei de ver a dada altura, quando um tal de Rafael Mora, que supostamente é um "partner" da consultora Heidrick & Struggles, que diz que "há já vários casos de sucesso de gestão pelo mérito em Portugal", que até posso concordar. Mas, quando ele enumera alguns exemplos e neles inclui casos como a PT e a Galp, escrevi o nome da consultora no meu Moleskine para me lembrar de NUNCA lhes pedir qualquer tipo de consultoria.

Mais adiante gostei do que escreveu a Sra. Maria Márcia Trigo, docente e directora da Business School da UAI em Portugal, quando afirma "os talentos são mais incómodos para as organizações porque questionam e se questionam, são muito exigentes com as chefias, com as condições de trabalho, precisam de maior espaço de decisão, convivem mal com as injustiças, não suportam burocracias e exercem grande pressão sobre os colegas, as chefias e administração". E acaba dizendo "este mercado global do talento que está em expansão, assusta empresários, executivos, quadros e até os próprios talentosos".

Eu não me considero um talentoso, mas tenho a mesma sensação quando trabalho numa empresa em Portugal (não o senti tanto em Inglaterra). Pelos vistos sou eu que tenho que mudar, porque as empresas não vão mudar. Se calhar tenho que deixar de ter espírito empreendedor, e achar que consigo mudar as empresas para melhor. Afinal de contas as empresas querem continuar a ser más! Amadoras, mas descansadas...

E o mesmo se passa no recrutamento. Quando recebo um mail a dizer "a sua candidatura não se enquadra no perfil definido para o recrutamento dos actuais projectos" de uma tal empresa, depois de ter ido a quatro entrevistas e as pessoas se mostrarem interessadas no meu perfil. E dias depois fazem uma proposta a vários colegas meus com qualificações inferiores às minhas, sem nunca me terem proposto nada, só me faz pensar que afinal tenho currículo a mais e não se premeia o mérito.

Se calhar sou "muita areia para muita camioneta". Serei assim tanta "areia"... Ou as "camionetas" é que são pequenas e não querem levar tanta "areia". Para quê? É mais confortável levar a "areia" que sempre levaram.

Eu aprendo a ser "areia"! Que arranha a engrenagem?

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

: : : 1-big-O [v17.0]

Diário de Aveiro - Clip - 16 de Fevereiro de 2006


in Diário de Aveiro - Clip - 16 de Fevereiro de 2006

A minha vida dava um filme do Alfred Hitchcock (pt. 5)

Há duas semanas telefonei para a Fodicis e pedi para falar com a Sra. C. S., que me tinha ligado no dia anterior mas que não me tinha apanhado.
- "Boa tarde! Daqui fala o ENGENHEIRO Rui Gonçalves que tenho aí um caso pendente de um empréstimo que nunca realizei!" – disse eu, testando até que ponto um título ainda é importante neste país.
- "Boa tarde! Sr... Sr. Engenhei... Sr. Rui Gonçalves..." – gaguejou – "o que se passa é que lhe queria comunicar que o dossiê passará a partir de amanhã para as mãos do departamento de pré-contencioso e que portanto deixará de estar nas minhas mãos!"
- "Ok! Eu também lhe queria comunicar que o Banco BETS, como deve compreender, ainda está em investigação e por isso ainda não tenho mais dados para lhe fornecer." – disse eu.
- "Obrigado, Sr. Rui, agradeço-lhe que assim que tiver mais dados a fornecer à Fodicis que o faça o mais rapidamente possível."
E ficámos por ali...

terça-feira, janeiro 24, 2006

A minha vida dava um filme do Alfred Hitchcock (pt. 4)

Ontem ao fim do dia! Toca o telemóvel. O número é omisso. Atendo e oiço do outro lado a mesma voz feminina de sempre da Fodicis (N.R.: Nome fictício):
- "Estou sim!?"
- "Estou sim, Sr. Rui Gonçalves? Daqui fala C. S. da Fodicis..."
- "Sim?" – respondi, disparando o meu batimento cardíaco prevendo o que viria a seguir.
- "O departamento de investigação da Fodicis depois de uma pequena análise ao seu processo devolveu-o ao departamento de cobranças, uma vez que a conta para onde foi efectuada a transferência da quantia relativa ao empréstimo aqui contraído, está em nome de Rui Manuel Carneiro Gonçalves."
Acalmei! Sentei-me e ela continuou:
- "Pelo que agradecíamos que nos enviasse uma declaração do banco em como não é a pessoa que abriu essa conta! E gostaríamos de ter isso até ao fim desta semana..."
"Ok!" – pensei eu – "Vocês demoram dois meses a contactarem-me por um empréstimo que não fiz, um mês para verem que afinal transferiram o dinheiro para uma conta que não abri e agora querem que o banco demore uma semana a passar uma declaração a ilibar-me de qualquer culpa no caso!"
- "Percebi, minha senhora!" – respondi, não tendo mais nada para dizer no momento.
Desliguei!

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Os Rui Gonçalves (2)


"The Portuguese rider Rui Goncalves has signed a deal with Team Silver Action KTM for 2006. The number ten of the world will stay in the MX2 class and will go out on a KTM 250F."

in Rui Goncalves

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Os Rui Gonçalves (1)


"Rui Goncalves ou "Mister feijoada", como os colegas da banda lhe chamam é a alma musical do conjunto. Mesmo sendo o mais novo da turma é quem se ocupa principalmente com os arranjos musicais, quer dizer, até agora tem sido........como casou neste verão vamos lá ver se continua assim. Queremos que sim, pois como organista da comunidade católica de Wiesbaden tem toda a ajuda necessária de "lá de cima"........ Para além disso é o senhor da claviatura e por consequencia o Keyboarder e segundo vocalista da banda."

in Banda Dóminó

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Loki


Há coisas que sempre me fascinaram e a imaginação humana é uma delas. Sempre gostei da maneira como nós humanos interpretámos aquilo para o qual não temos explicação. E os deuses e os mitos são fruto dessa necessidade da imaginação humana em justificar esses fenómenos inexplicáveis.

Outra coisa que me fascina é a diversidade cultural do mundo onde vivemos (já não falo no universo, porque ainda não tive nenhum contacto extraterrestre). Se juntarmos as duas coisas obtemos uma infindável fonte de histórias de uma poesia inacreditável.

Há dias li a história de um deus da mitologia nórdica chamado Loki e que conseguiu derrotar o deus trovão Thor. Na história, Loki era um deus que apenas queria atenção e por isso era um frustado, e assim achou que ao aprisionar Thor poderia tomar o seu lugar.

A história não era má! Era em banda desenhada e os desenhos eram muito bons. Não é uma obra prima mas fez-me procurar saber o fundamento daquela história e em como aquilo se assemelhava aos mitos nórdicos.

Descobri então que o final do livro é mesmo baseado na mitologia (para além de grande parte dos episódios dessa história). Assim, quando Thor, que se encontra agrilhoado, se liberta e derrota Loki, este é condenado pela morte de um terceiro deus – Balder o deus da luz. Loki é condenado a ficar agrilhoado a três rocha para a eternidade. Sobre a sua cabeça fica uma cobra venenosa, cujo o veneno a sua esposa dedicada – Sigyn – apanha num recipiente. Porém de tempos a tempos o recipiente enche e Sigyn tem que o despejar caindo o veneno sobre a cabeça de Loki, que com as dores daí resultantes origina os terramotos.

terça-feira, dezembro 27, 2005

Resoluções de 2005

Há um ano deixei aqui as minhas resoluções para 2005. 12 meses depois chegou a altura de fazer uma análise sobre o que realmente cumpri dessas resoluções. E assim analisar quais as minhas resoluções para o ano que vem.

A primeira resolução do ano passado continua sempre em contínuo desenvolvimento. Depois do escritório, do quarto dos hóspedes, do aquecimento, seguiu-se a cozinha e umas coisas novas no quarto. Nunca telefonámos ao homem da lenha, mas arranjei o autoclismo. Espera-me ainda os anexos, que estão muito próximos das imagens que há um ano víamos vindas da Tailândia.

A segunda resolução foi até ampliada para além do que disse nessa altura. Ainda tenho a Vespa do PP, mas sei que ele em breve a quererá de volta e se não a quiser eu próprio a devolverei. Nessa altura compro uma para mim, porque gosto mesmo da liberdade que me dá um veículo de duas rodas. Mas, há um mês comprámos um carrito novo (em segunda mão). Mantivemos o jipe, mas com a subida do preço do gasóleo e com o inverno à porta quisemos melhorar a nossa conta bancária mensalmente, poluir menos e melhorar as minhas deslocações em tempo de chuva.

A terceira resolução continua a ser a alegria da casa. A Cinzas! E até já conseguiu que a minha sobrinha mais velha tenha perdido parte do seu pavor aos animais.

Quarta resolução! A minha (nossa) positividade. Confesso que houve recaídas graves aquando da minha mudança de emprego e que houve alturas que me custou mesmo ver os cinzentos. Mas a prova de que estou mais positivo é a história sobre o "empréstimo", que toda a gente mete as mãos na cabeça quando ouve e que nós encarámos com a maior das calmas (embora tenha noção que ainda vá dar chatices). Além disso em breve estarei de novo entre-empregos (aquilo que normalmente chamariam de desemprego) e só penso nisso com uma ansiedade enorme apenas porque queria que fosse já amanhã.

Sobre o Yoga e a importância que isso tem para a minha vida, e que na altura pus aqui como quinta resolução, só penso que poderia fazer muito mais e que houve alturas que fui preguiçoso. Mas Yoga não é só ir às aulas e fazer umas posturas bonitas. Yoga é aplicado em tudo o que fazemos. E o que disse no parágrafo anterior é Yoga. Mas ainda não consegui chegar aos 70 Kgs, embora queira ter como resolução este ano (novamente) perder uns quilos. Sim! Porque este ano em vez de perder ganhei...

Houve resoluções que temia não cumprir, porque estavam mais no nível do sonho ou porque sabia que não me seria permitido despender esse tempo ou dinheiro. Como aquela de tirar um curso para professor de Yoga. O que eu queria tirar era em Inglaterra, mas é impraticável em termos económicos ou mesmo em termo de disponibilidade temporal. Mas pode ser que o curso venha a Portugal e eu vou agora a Londres, em Janeiro, experimentar o "duro" exercício de meditar em grupo durante 12 horas, o que me dará de certeza para pensar bem nesta resolução.

A casa da minha avó em Almendra também estava nas minhas resoluções deste ano que agora acaba. Confesso que fizemos um esforço enorme para a limpar. Um esforço tão grande que a vontade de lá voltar diminuiu. Tenho imensa saudades daquilo tudo, mas a casa não tem as condições ideais para ser usada no Inverno, mas espero poder usá-la mais na primavera.

Quanto ao leitor de CDs... Ganhei um Zen Micro!!!!

Durante os próximos dias de férias pensarei que resoluções tomarei para 2006. Não sei se farei como as resoluções que (não) tomei em termos profissionais em 2005 e que afinal de contas foi a área da minha vida que mais dominou o ano. Se calhar foi precisamente porque não tomei nenhuma resolução e assim não tinha objectivos. Mas este ano penso tomar algumas resoluções em termos profissionais ou em termos de carreira, porque provavelmente a minha vida será mais dominada pelo sector pessoal, e não posso permitir que haja outros sectores tão exigentes para com o meu tempo.

Até para a semana!

Cândido-actozinho (Tenho fome)

Fim da greve de fome do candidato Botelho Ribeiro

"O candidato Luís Botelho Ribeiro agradece aos cidadãos, apoiantes e jornalistas as numerosas manifestações de solidariedade recebidas durante a greve de fome de dois dias, agora terminada...

A greve foi interrompida por se ter conseguido o essencial das reivindicações e também pela necessidade de atender uma situação familiar de carácter urgente."

in Nota de Imprensa do Candidato

sábado, dezembro 24, 2005

Boas Festas

Este ano não mandei postais, não vou mandar SMSs e nem telefonar a ninguém a desejar Boas Festas! Tirando os postais em si, cujo dinheiro podia reverter para programas de solidariedade, todos os outros servem apenas para engrossar a conta de alguns.

Por isso:
Bom Natal e Feliz Ano Novo a todos!!!
Bom Natal e Feliz Ano Novo

sexta-feira, dezembro 23, 2005

A minha vida dava um filme do Alfred Hitchcock (pt. 3)

Quinta-feira. Saio do emprego e vou na Vespa entre o trânsito, que nesta altura e aqui perto do Centro Comercial é imenso, e sinto o telemóvel vibrar no bolso do casaco. Paro! O número é omisso. Atendo e, enquanto tiro o capacete, digo:
- "Aguarde um momento, por favor!" – sem conseguir o que dizem do outro lado.
Quando finalmente consigo atender oiço a voz da senhora da Fodicis (N.R.: Nome fictício) que está responsável pelo "meu" processo do empréstimo que nunca fiz:
- "Estou sim? Sr. Rui Gonçalves? Recepcionámos a sua exposição, porém eu tinha lhe pedido para anexar a cópia da queixa-crime que efectuou na polícia" – disse ela, bastante mais simpática.
- "Eu enviei a notificação que me foi dada pela polícia!"
- "Pois mas o Departamento Jurídico da Fodicis necessita da cópia da queixa-crime e não a notificação, Sr. Rui."
- "Peço imensa desculpa, mas isso foi tudo o que me foi dado pela polícia, mas amanhã eu irei à polícia pedir a cópia da queixa-crime."
- "Obrigado, Sr. Rui. E boa noite!"
- "Boa noite!" – grunhi entre dentes e desliguei.

Hoje de manhã dirijo-me à esquadra de polícia onde efectuei a denúncia e pergunto ao polícia se seria possível facultar-me uma cópia da queixa-crime que efectuei na segunda-feira. A resposta foi simples "Nós não fornecemos nenhuma cópia dessa espécie" - disse-me o polícia simpaticamente - "mas dirija-se à nova esquadra e aos serviços de investigação criminal e eles pode ser que lhe facultem alguma coisa desse género".

Atravesso a cidade em ante-véspera de Natal, com um trânsito caótico e chego à nova esquadra, cuja existência desconhecia e cuja existência preferia continuar a desconhecer.

Entro e explico a situação. Nisto entra um guarda da GNR. O Sr. PSP interrompe-me, pedindo desculpa e dirigindo-se ao soldado que acabou de chegar, pergunta:
- "Que deseja?"
- "Era shó pra intregar eishto! É do shenhore cumandante!" – diz o Sr. GNR esticando uma prenda de Natal.

Após a saída do Sr. GNR, volto a explicar a minha situação. Resposta: "Nós não fornecemos nenhuma cópia dessa espécie" - disse-me o polícia - "mas dirija-se aos serviços de investigação criminal, na primeira porta à direita naquele corredor, e eles pode ser que lhe facultem alguma coisa desse género".

Entro na sala dos serviços de investigação criminal, onde estão três mulheres. Uma, de frente, no computador a digitar alguma coisa, outra com um monte de papéis e a terceira, de costas, na máquina de fotocópias.
- "Bom dia!" – digo timidamente. Nada muda na sala, até que um minuto depois dão pela minha presença. Explico a situação e a senhora que estava com o molho de papéis levanta a cabeça e diz:
- "Os senhores da Fodicis sabem muito bem que nós aqui não podemos fornecer a cópia da queixa-crime, porque uma vez feita a denúncia isso entra em segredo de justiça!" – disse ela com um tom algo gelado – "Porém posso lhe passar uma declaração dizendo que a fez e em que termos a fez!"
- "Ok! Isso deve servir!" – disse eu ainda mais intimidado.
- "Qual é o número da sua queixa?" – diz ela com um tom semelhante ao da minha professora primária quando fazíamos asneiras.
E ali estive uns 10 minutos enquanto escrevia a declaração no computador. Quando acabou levantou-se e passou por mim, já esboçando um sorriso e foi pedir a assinatura do comandante.

A meio da tarde telefono para a Fodicis:
- "Fodicis ! Bom dia!" - dizem do outro lado.
- "Boa tarde! Queria falar com a senhora C. S., se faz favor!" – disse eu.
- "É cliente da Fodicis?"
- "Não sou cliente, mas infelizmente parece que sou"- disse eu. Ao que seguiu o pedido do número de contribuinte e a posterior passagem da chamada para a pessoa que está a gerir o "meu" processo.
- "Estou sim? Sr. Rui." – diz ela, toda simpática.
- "Boa tarde! Eu fui à polícia e disseram-me que os senhores já deviam de saber que eles não fornecem a cópia da queixa-crime por estar em segredo de justiça. Mas passaram-me uma declaração em como a apresentei e em que moldes o fiz."
Resposta:
- "Mas era mesmo isso que eu tinha falado!" – disse ela, enquanto eu pensava para comigo "Óbvio!".

A minha vida dava um filme do Alfred Hitchcock (pt. 2)

Segunda-feira de tarde. Toca o telemóvel. O número é omisso. Atendo e oiço do outro lado a mesma voz feminina da quinta-feira passada:
- "Estou sim? Sr. Rui Gonçalves?" – disse ela num tom bastante mais cordial.
- "Sim! Sou eu!" – digo eu muito seco.
- "Gostava de lhe pedir desculpa pelo facto de não o ter podido receber na sexta-feira quando aqui veio às nossas instalações."
- "Ok!" – digo eu num tom ainda mais seco, pensado no facto de que nunca me tinha informado que nesse dia fechavam mais cedo porque havia festa de Natal da empresa, e no facto de 13 minutos depois das 17:00 (a hora de fecho extraordinária) já não estar no local de trabalho para me "receber".
- "E gostaria também de lhe pedir que me enviasse anexa à exposição que vai fazer a cópia da queixa-crime que vai efectuar na polícia."
- "Ok!" – grunhi.
- "Pronto! Então agradeço-lhe que me envie essa informação o mais tardar até sexta-feira. Obrigado e boa tarde." – disse já num tom mais exigente.
- "Boa tarde!" - E desliguei!

quinta-feira, dezembro 22, 2005

A minha vida dava um filme do Alfred Hitchcock (pt. 1)

Tinha almoçado bem e estava a começar uma nova tarde de trabalho. Toca o meu telemóvel e é um número não identificado. Podia ser alguns dos meus amigos que sempre resolvem passar por anónimos.

Atendi! Oiço do outro lado:
- "Estou sim? Estou a falar com o Sr. Rui Manuel Carneiro Gonçalves?"
Desconfiei! Quando me chamam pelo nome completo é porque não me conhecem.
- "Sim, sou eu!"
- "Daqui fala da Fodicis (N.R.:nome fictício)..." – disse a voz feminina. Eu pensando que era alguma publicidade daquelas compre-este-aspirador-e-damos-lhe-três-dias-de-férias-na-gronelândia, disse logo:
- "Eu não tenho nada a ver com a Fodicis!"
- "Não tem? Mas o seu bilhete de identidade não é o 6231568?"
- "Sim!"
- "Mora na R. Cais do Albói, 54 em Aveiro."
- "Não! Moro em Aveiro mas desconheço essa morada!"
- "É que temos aqui um crédito feito neste nome. E o seu número de contribuinte é o 612361812?"
- "Sim! Mas para que banco foi feita a transferência?" – disse eu.
- "Espere um pouco... Banco Bets!"

A conversa continuou com algumas trocas de informações, mas sem que a tipa do outro lado baixasse os ataques como se eu fosse realmente o tipo que lhe pediu 6000 euros. Falei com um amigo advogado e embora ele achasse que não era minha obrigação reclamar a minha inocência, mas a da Fodicis de provar a minha culpa, resolvi ir a Lisboa limpar o meu nome.

No dia seguinte, depois de almoço, fui para Lisboa. Depois de duas horas e pouco de viagem, algumas filas e muita confusão, cheguei ao edifício da Fodicis em frente ao Museu Calouste Gulbenkian. Entro e informam-me que naquele dia excepcionalmente tinham fechado às 17:00 (eram 17:13), quando a tipa do outro lado da chamada me tinha dito que fechava às 18:00 e depois de eu lhe ter garantido que lá ia naquele dia.

Começaram-me a subir os calores. E não fosse a prontidão em arranjarem alguém que me atendesse e estava pronto a perder a minha boa vontade toda de limpar o meu nome e lhes poupar o trabalho de me acusarem de algo que não fiz. Em pouco tempo estava com a cópia do bilhete de identidade, do cartão de contribuinte e o contrato em meu poder, tudo o que precisava para apresentar queixa na polícia.

É impressionante como se transfere 6000 euros para a conta de alguém baseado na fotocópia de um bilhete de identidade de alguém que nasceu em Lourenço Marques, uma cidade que já não tem essa designação desde há 30 anos e com a validade de 10 anos, algo que só é possível a quem tem mais de 35 anos, e à data da emissão do mesmo documento (09/01/2004) alguém nascido em 22/08/1969 teria apenas 34 anos. Para além de não falar que a fotografia é no mínimo irreconhecível (e em nada se parece comigo). E o cartão de contribuinte nota-se que o número foi lá colocado, porque está desalinhado com o resto do texto do mesmo. Depois admiram-se...

Obviamente que os dados foram sacados todos do meu CV que está online e que já nem sequer inclui aqueles dados, mas cujo conteúdo do site ainda não tive tempo de actualizar.

Passou o fim-de-semana e na segunda-feira de manhã, mal me levantei dirigi-me à esquadra de polícia de Aveiro. Expliquei a situação! O homem ficou a olhar para mim:
- "Mas fazem empréstimos assim? Assim qualquer um os pode enganar!"

Estive lá uma hora e tal para que o Sr. PSP me fizesse um texto que conseguisse explicar o sucedido, ou o que achamos que terá acontecido. A queixa seguiu para a polícia judiciária e eu mandei uma cópia para a Fodicis.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Coisas simples

Ultimamente tenho tido formação depois das horas de trabalho e chego a casa, normalmente já depois dos vizinhos jantarem.

Há algum tempo que reparei que há uma senhora e uma miúda nos seus dois anos, que por volta da hora que chego a casa, passam ali em frente ao prédio. Sempre que abro o portão automático da garagem a miúda insiste com a senhora (suponho que a mãe) para ficar ali a assistir ao seu fecho, também, automático.

A primeira vez que reparei foi há cerca de meio ano, porque estava a dar formação na altura.

A "mãe" e a miúda já me conhecem e cumprimentam-me. Rimo-nos sempre da situação.

Ontem perguntei-lhe se tinha pedido um portão ao Pai Natal. Como as coisas simples também são importantes. Principalmente nesta altura do ano em que só se pensa em coisas grandes para ofuscar.

domingo, dezembro 18, 2005

O nosso cândido-actozinho

Presidenciais 2006
Pré-candidato Botelho Ribeiro anuncia greve de fome contra "censura televisiva"
18.12.2005 - 08h46 Lusa


Botelho Ribeiro, 38 anos, entregou sexta-feira no Tribunal Constitucional cerca de 2500 das 7500 assinaturas necessárias para formalizar a sua candidatura

O pré-candidato à Presidência da República Luís Botelho Ribeiro anunciou ontem à noite que vai iniciar hoje, em Braga, uma greve de fome contra a "censura televisiva" à sua candidatura, parcialmente formalizada sexta-feira.

Em comunicado enviado à Lusa, Botelho Ribeiro, professor de Engenharia Electrónica na Universidade do Minho, em Guimarães, refere que a greve de fome vai iniciar-se às 15h30 frente ao coreto da Avenida Central com uma "manifestação de desagravo perante a censura televisiva a esta candidatura do Norte".

Botelho Ribeiro, 38 anos, entregou sexta-feira no Tribunal Constitucional "cerca de 2500" das 7500 assinaturas necessárias para formalizar a sua candidatura às eleições presidenciais de 22 de Janeiro.

Prometendo entregar as restantes assinaturas "na quinta ou sexta-feira" da próxima semana, Botelho Ribeiro definiu-se como "um ilustre desconhecido", mas "um renovador" e um "cidadão empenhado".

"Não podemos deixar cinco inteligentes a falar por nós", disse, confessando ter como única experiência eleitoral a vitória que obteve nas eleições para a Associação Académica da Universidade de Aveiro.

"Pode-se dizer que sou um candidato 100 por cento vitorioso", ironizou.

Botelho Ribeiro prometeu uma "campanha porta a porta e pessoa a pessoa", uma "campanha de artesanato" centrada na "discussão de ideias e perspectivas para a sociedade portuguesa", num "projecto que é feito para os cidadãos".

"Vou andar pelo país todo. Estamos abertos à constituição de núcleos por todo o país", acrescentou.

A candidatura que prometeu formalizar integralmente na próxima semana com a entrega das restantes cinco mil assinaturas é para ir até ao voto já que, salientou, "o país só tem a ganhar que o debate se faça com a máxima pluralidade".

in Público

quarta-feira, dezembro 14, 2005

(Ex)Citação XXII

"God has a master plan
That only He understands.
"
Depeche Mode - Precious

domingo, dezembro 11, 2005

Vamos tomar um cafezinho?

Portugueses desperdiçam milhões de horas de trabalho por ano: o equivalente a 5,8% do PIB

Os portugueses desperdiçaram 1.574.203.400 horas de trabalho no ano passado. Uma enorme cifra com dez algarismos e que, para uma população activa próxima de 4,2 milhões de pessoas, significa que cada trabalhador português desperdiçou, durante 2006, mais de 42 dias úteis de trabalho, à média de oito horas diárias. São mais de 65 milhões de dias de trabalho perdidos em 2004.
A um custo médio de 5,17 euros por hora de trabalho, as pausas para o café, absentismo, as baixas, as pontes, os feriados, as greves e o tempo útil desperdiçado devido à falta de organização das empresas e das organizações representará um total de 8143 milhões de euros. O equivalente a 5,8% do PIB.
Os dados constam do último relatório da consultora Proudfoot sobre produtividade. De um conjunto de nove países analisados, Portugal está no penúltimo lugar do "ranking", conseguindo apenas maior produtividade que a Hungria e, ainda assim, com vantagem de apenas um ponto. Por cada hora de trabalho, os portugueses produzem 64% a menos que os franceses, 48% a menos que os americanos e 21% a menos que os espanhóis.
De acordo com as conclusões do estudo, o baixo nível produtividade deve-se sobretudo ao fraco nível planeamento e à insuficiente gestão operacional das empresas. A falta de liderança e de supervisão é a segunda razão apontada. A título de exemplo, a Proundfoot refere que mais de metade dos sistemas de controlo do trabalho são inapropriados. E dos sistemas que funcionam, cerca de um terço precisam de ser melhorados. Outro dado curioso com reflexo directo nos níveis de produtividade, são as reuniões de trabalho: metade são realizadas sem agenda.
O enorme desperdício de horas de trabalho não significa que os portugueses trabalhem menos que os outros. Devido À baixa produtividade, cada português trabalha uma média de 1718 horas anuais. Na europa, só os espanhóis e os húngaros roubam mais tempo ao lazer. A baixa produtividade é, aliás, o principal factor que justifica as diferenças de PIB "per capita" conclui o relatório. Em Portugal, por exemplo, o PIB "per capita" é metade do americano. E destes 50 pontos percentuais de diferença, 48 derivam da menor produtividade. Os espanhóis têm um PIB "per capita" 14% superior, mas uma produtividade 21% superior, pois trabalham menos horas com uma população activa menor.

EUA x Europa
Fora da Europa, na Austrália e nos EUA, trabalha-se mais do que na maioria dos países europeus. "Há uma diferença nos níveis de produtividade entre a União Europeia e os EUA: os americanos têm uma produção por hora de trabalho 8% superior", confirma Nicholas Crafts, professor de Hhistória Económica da London School of Economics.

Por Álvaro de Mendonça
in Expresso, 10 de Dezembro de 2005

terça-feira, novembro 29, 2005

Génios em fuga

Estar no sítio certo, no momento certo, pode mudar o rumo de uma vida. Há
dez anos, enquanto Ricardo Reis assistia a uma normal aula de inglês, alguém
entrou na sala para desafiar os alunos a estudar no estrangeiro e o jovem de
17 anos ficou logo com bichos carpinteiros. Quis saber tudo. Três anos
depois acabou a licenciatura em economia, na London School of Economics, no
Reino Unido, como melhor aluno da turma, e nunca mais parou. Foi para
Harvard tirar o doutoramento e hoje é professor na Universidade de
Princeton, nos Estados Unidos. Ricardo é um dos mais bem sucedidos jovens
portugueses no estrangeiro e sente "um certo sentido de dever para com o
país". Mas, pelo menos nos próximos cinco anos, não está no seu horizonte
voltar a Portugal. Até porque está onde deve estar: "Num ambiente
estimulante, com condições que não existem em Portugal". Ele e a mulher,
doutorada em sociologia e também professora em Princeton, vivem a cinco
minutos da faculdade, têm uma carga horária leve, um bom salário e estão "no
centro de tudo".
Ainda em Londres, Ricardo descobriu que queria seguir o ramo da investigação
e, por isso, sabia que tinha de estar onde tudo acontece: "À hora de almoço
falo sobre uma descoberta de um colega que pode influenciar o meu
trabalho...". O facto de Portugal ser o país da União Europeia que mais
cérebros "exporta" é explicado pelo jovem economista de uma forma simples:
"Temos um mercado de trabalho muito rígido, é muito difícil arranjar um
primeiro emprego que nos valorize. Também é muito difícil ser despedido e,
por isso, às tantas, há uma série de pessoas que não tem competência ou
valor, mas que estão a ocupar um lugar". Ricardo está convencido que, "para
pessoas novas e ambiciosas, é quase uma escolha normal sair de Portugal".

Entre estes jovens de que fala Ricardo está Susana Redondo que, na hora de
fazer as malas, não pensou duas vezes. "Não há mercado em Portugal, há
muitos compadrios e poucas oportunidades". Esta jovem portuguesa nunca foi
grande fã de futebol, mas há três anos que não pensa noutra coisa: trabalhou
no Euro 2004 e, como a experiência correu bem, saltou directamente para o
Euro 2008, que vai decorrer na Suíça e na Áustria. Susana já tinha estado lá
fora - estagiou em França, na Euronews - e o "bichinho ficou". Por isso não
hesitou em ir para a Suíça, onde está desde 1 de Julho a trabalhar na
organização do Euro 2008. Um evento, que segundo Susana, tem sido organizado
com a ajuda do bom exemplo português, que organizou o evento em 2004, mas
que se torna uma tarefa ainda mais árdua porque vai decorrer em dois países,
como aconteceu em 2000 (na Bélgica e na Holanda).
Susana já conhecia a Suíça e não se sentia fascinada pelo país. Mas, embora
sinta falta da família, não pensa voltar tão cedo porque " o mercado de
trabalho em Portugal é mais limitado". Não poupa críticas ao sistema
nacional, mas também não poupa elogios aos portugueses: "Se em Portugal
houvesse oportunidades seríamos os maiores", afirma com o seu sotaque
nortenho.

As oportunidades, ou melhor, a falta delas, são também a razão que levou
Ricardo Marvão a apostar numa carreira internacional. "Sempre gostei muito
de Portugal e acho que o país tem grande potencial, mas as grandes
oportunidades estão fora do país e é lá fora que os portugueses são cotados
ao mais alto nível". Ricardo já correu meio mundo - estudou nos Estados
Unidos, Áustria, Londres, Paris - e hoje, aos 27 anos, é dono da única
empresa portuguesa sediada no centro de operações da Agência Espacial
Europeia (ESA), em Frankfurt, na Alemanha.
Ainda há pouco tempo, este engenheiro informático esteve envolvido na
construção do Cryostat - um satélite europeu com o objectivo estudar o
aquecimento global da terra. A missão fracassou devido a uma falha no
foguetão russo, perderam-se 160 milhões de euros e vários anos de trabalho,
mas a ESA já decidiu que, dentro de três anos, será lançado o Cryostat 2.
Ricardo Marvão e sua empresa, a Oristeba, estarão novamente envolvidos no
projecto. Ricardo aterrou na ESA há dois anos para realizar um estágio, mas
três meses depois já lhe pediam para ficar na agência. Na altura, ele e o
actual sócio, Nuno Sebastião, perceberam que era viável criar uma empresa
para prestar serviços à ESA e mergulharam de cabeça no projecto. Depois de
vários contactos e estudos, e com o apoio do governo português, conseguiram
criar a Oristeba.
Ricardo tem "a certeza" que o seu "futuro passa por Portugal", mas não sabe
quando é que isso vai acontecer, já que o próximo ano será determinante para
o crescimento da Oristeba. É o primeiro ano em que Portugal está em
concorrência aberta e "tem que mostrar à Europa que é capaz. O nosso Governo
está atento. E tem que estar, senão perdemos o comboio".
Antes de se ter mudado para a Alemanha, Ricardo teve uma breve passagem pelo
mercado de trabalho português. As experiências na Portugal Telecom Inovação
e na Associação Industrial Portuguesa serviram para descobrir um dos
problemas do mundo laboral português. "Fora do país, o chefe de uma empresa
aposta num jovem e dá-lhe responsabilidade, em Portugal não é sequer dada
liberdade". E é claro que "os ordenados são muito superiores". Ricardo
acredita que os doutores emigrantes, "mais cedo ou mais tarde, regressam e
trazem mais-valias para o país". Na aventura de crescer profissionalmente
fora de Portugal há um pequeno senão: faltam "o sol, o mar, a família e os
amigos". E é quando a saudade bate que Ricardo apanha um avião e em três
horas se põe em Portugal.

Dizem, aliás, que a saudade é uma coisa muito portuguesa. Até Maria Miguel,
que não pensa em voltar, fica com a voz tremida quando recorda o cheiro a
maresia. Está na Suíça, bem longe do mar, com um cargo de topo numa empresa
de relojoaria, área onde os suíços são mestres. Partiu com 22 anos para
estudar na Suécia, ao abrigo do programa Erasmus, mal chegou a Portugal fez
novamente as malas para ir estagiar em Genebra. Partiu para ficar nove
meses, mas já está há três anos. Pouco depois de chegar foi convidada para
integrar os quadros da empresa e assumir um cargo de direcção. Embora
Genebra seja uma cidade que alberga várias multinacionais, não são assim
tantos os estrangeiros que chegam a um cargo de topo, talvez por isso Maria
já sentiu que na empresa a olharam com desconfiança. Mas, é um mal menor:
"As vantagens de estar no estrangeiro são intermináveis". Tantas que,
entretanto, Maria "convenceu" outros dois portugueses a juntarem-se à sua
equipa em Genebra.
Quando decidiu ir para a Suíça disseram-lhe que, na empresa para onde iria,
bastava dominar o inglês. Mas quando lá chegou percebeu que não era bem
assim e, como não dominava o francês, quase entrou em pânico. Mas tudo não
passou de um susto, Maria aprendeu a língua e nunca mais parou - aliás o seu
objectivo a médio prazo é partir para trabalhar noutro país e fazer um MBA.
Daniel Motta Veiga também suou as estopinhas para entender os colegas de
trabalho. Antes mesmo de tirar o curso, aos 18 anos, este designer gráfico
aterrou na Alemanha para trabalhar numa empresa de automóveis, mas não
entendia uma palavra do que os alemães diziam. "Disseram-me que durante três
meses podia falar inglês, mas depois disso só podia falar alemão". E assim
foi. Pouco tempo depois Daniel já dominava a língua, tão bem que ficou por
lá quase dois anos. E deu-se bem. Um dos seus projectos (transformação de um
Opel Tigra numa pick up) foi escolhido para o Salão Internacional de
Automóveis de Genebra - uma das mais importantes mostras da área.
Daniel acabou por voltar a Portugal para tirar a licenciatura em Design
Industrial, mas rapidamente decidiu partir de novo. Com um diploma na mão,
andou entre Madrid e Turim para conseguir um master e acabou por ficar em
Itália. Esteve envolvido em vários projectos da Fiat, Alfa Romeu e Lancia,
mas acabou na Pininfarina, uma das mais importantes empresas de design
industrial do mundo, onde está há cerca de dois anos e meio. Não pensa
voltar, até porque "o design industrial não é levado a sério em Portugal".
Daniel vem cerca de três vezes por ano a Lisboa matar saudades da família e
amigos. E quando Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé, de tal
forma que este ano Daniel conseguiu convencer os pais a ir passar o Natal a
Miami, cidade onde está neste momento a trabalhar ao serviço da Pininfarina.
Já Maria Madureira vem directamente dos antípodas, Austrália, para passar o
Natal com a família. A jovem gestora tem o espírito aventureiro no sangue, e
mais do que procurar uma brilhante carreira profissional, Maria tem andado a
saltar de país em país pelo gozo de conhecer novas gentes e novas culturas.
"Sei que posso estar a prejudicar a minha carreira, mas estou a valorizar-me
enquanto ser humano", justifica Maria. Depois de ter terminado o curso Maria
fez um estágio entre Portugal e Brasil, mas a dada altura decidiu ganhar
asas. Foi tirar um MBA para a Colômbia e depois decidiu viajar - andou em
São Paulo, Amesterdão, Nova Iorque e agora o seu poiso é Sidney, onde
trabalha numa empresa de consultadoria. No entanto, está certa que ainda há
caminho a fazer. "A média prazo quero ir para outro país e cada vez mais
penso que não será Portugal". Maria tem "orgulho" do seu país, mas sente que
em Portugal "somos todos muito semelhantes".

Por Mariana Adam
in Público