Tudo começou em 2000 com a minha ida para a Califórnia para um estágio. As Crónicas foram servindo de diário da aventura. E continuam, mesmo depois de voltar... E de voltar a sair para Inglaterra, Japão, Luxemburgo, França, Finlândia, Holanda, São Tomé, etc...
Cada aventura ou momento que me permito partilhar está aqui nas Crónicas da Califórnia.
quinta-feira, maio 21, 2009
A minha vida dava um filme do Roberto Benigni
Na altura tinha decidido deixar a empresa onde era sócio e estava activamente à procura de emprego.
Quinta-feira à noite. Cerca das 22:50, toca o telemóvel. Não é nada normal receber chamadas a essa hora (e não era o meu irmão).
- Boa noite! – ouve-se do outro lado – Rui Gonçalves?
- Sim! Boa noite – respondi.
- Daqui fala da empresa Leash, na sequência da sua candidatura à vaga de Versioning Engineer gostaríamos de agendar uma entrevista para a próxima terça-feira pelas 11:30. É possível?
Se havia coisa que eu tinha nessa altura era uma agenda simples e bastante disponibilidade.
- Sim! – respondi de novo.
- Fica então confirmado, terça-feira às 11:30 aqui nos nossos escritórios. – respondeu. Ao que se seguiu uma pequena explicação da localização dos escritórios e como lá chegar.
Quando desliguei o telemóvel fiquei a pensar que tipo de funcionário de uma empresa, como aquela (com algum prestígio), telefona a candidatos de emprego às 22:50 de uma quinta-feira, para marcar uma entrevista para a semana seguinte, para uma terça-feira. Será que não poderia telefonar na sexta-feira ou mesmo na segunda-feira da manhã? – pensei – É um teste! O tipo está a testar a disponibilidade das pessoas… - e fui dormir.
Segunda-feira à noite. Cerca das 21:50, toca o telemóvel. De novo um número desconhecido.
- Boa noite! – ouve-se do outro lado – Rui Gonçalves?
- Sim! Boa noite – respondi.
- Daqui fala da empresa Leash, na sequência da entrevista marcada para amanhã às 11:30 para a vaga de Versioning Engineer. Seria possível anteciparmos a entrevista em meia-hora?
- Sim! – respondi de novo.
- Fica então confirmado, a entrevista para as 11:00, amanhã, aqui nos nossos escritórios. – respondeu.
No dia seguinte lá fui para o Porto, de maneira a estar nos escritórios da empresa antes das 11:00. Cheguei bem cedo, estacionei, revi umas coisas sobre versionamento e aplicações de controlo de versões de software.
Às 10:50 estava a falar com a recepcionista, que me pediu para aguardar.
A empresa tinha mudado de instalações há muito pouco tempo e ainda se notava que as pessoas não estavam ambientadas ao seu novo local de trabalho. Havia algum reboliço nos corredores, pessoas sempre a entrar e sair, técnicos a instalar cabos e a fazerem furos.
A dada altura um jovem entrou e perguntou, a recepcionista, se podia entregar o seu currículo. E ela ficou com ele. A tipa era eficiente, mas muito bruta. Esteve um bocado a falar com a responsável da empresa de limpeza, a chamar a atenção para a conduta de uma sua funcionária.
E assim fui passando o tempo. Observando o normal funcionamento da empresa Leash, que me ia entrevistar e que poderia até ser o meu próximo local de trabalho.
Aguardei 45 minutos até que apareceu o entrevistador, já passavam 5 minutos da hora agendada (11:30) até à noite anterior. Às 11:45 estávamos prontos para a entrevista, eu, o tipo dos Recursos Humanos que me telefonou e dois engenheiros da empresa.
A sala era pequena, e foi preciso ir buscar mais umas cadeiras para nos podermos sentar todos. Penso que era o gabinete do tipo dos Recursos Humanos.
A entrevista seguiu os trâmites normais. Com a apresentação das pessoas e seguiu-se uma resenha da minha vida profissional e…. A dada altura abre-se a porta por detrás de mim (os outros três estavam de frente para mim e para a porta) e oiço uma voz feminina, algo exaltada e quase aos gritos:
- Oube lá! Roubaste-me a cadeira!
Não me lembro de muito mais da entrevista. Mas lembro-me de pensar "Como é que esta empresa tem o prestígio que tem e consegue ter os clientes que tem?" e ainda pensei pior quando me disseram que não faziam controlo de versões de software, num projecto com quase 100 colaboradores e que mexe com protecção dos dados pessoais. "Que desorganização..."
A partir desse momento devo ter enterrado a entrevista, porque nunca mais me disseram nada.
segunda-feira, abril 06, 2009
A minha vida dava um filme do Tim Burton
Um tipo de chapéu, e um saco maior que ele, fuma o seu cigarro antes de entrar. Dirijo-me para a carruagem da frente.
Ao meu lado um tipo, sozinho, rindo-se, comenta qualquer coisa acerca de o Intercidades também parar ali. Olho para o homem. Cabelo comprido como já não se usa desde que os UHF deixaram a Rua do Carmo. Olhar vidrado, a fumar e com ar de quem não sabe muito bem porque ali está. Nos seus quarenta, algo alienado, o homem abana a cabeça enquanto lê o aviso da chegada do Intercidades.
Entro no comboio. Sento-me, ponho os auscultadores e oiço Gary Marx.
O homem vem também para o comboio. Abre a porta da cabine do condutor. E entra!
E arrancamos...
(sábado, 4 de Março de 2009, estação de Aveiro)
domingo, outubro 14, 2007
A minha vida dava um filme do Sergio Leone
Nos anos de um amigo, que fazia mais que 39 e menos que 41 anos, e que em tempos teve a mania que queria ter bigode (andou inclusivamente a ter consultas com o MEC/Dr. Pastilhas). Fomos todos de bigode...
segunda-feira, outubro 08, 2007
A minha vida dava um filme do Nanni Moretti - No Coliseu
quarta-feira, outubro 03, 2007
segunda-feira, fevereiro 19, 2007
A minha vida dava um filme de Luís Ismael
Ontem, fui jantar a casa de uns amigos a Esmoriz. Mas antes fui fazer uns quilómetros de BTT. Ao retornar a casa, tomámos, eu e o meu amigo, o caminho sobre o passadiço de madeira nas dunas da praia de Esmoriz. Já estava muito escuro!
Ao longe via-se uma luz verde, que com a proximidade se foi transformando numa máscara de Carnaval. Uma máscara do Homem-Aranha num miúdo de pouco mais 3 ou 4 anos.
Quando passámos pelo Homem-Aranha, que estava acompanhado por uma mulher, cumprimentámos:
- "Olá Homem-Aranha!"
Ao que o miúdo ficou parado a olhar para dois adultos vestidos de calções de lycra e casaco amarelo, em cima de duas bicicletas, provavelmente a pensar se aquela seria o nosso disfarce.
Tivemos que desmontar para descer umas escadas muito íngremes e fomos apanhados pelo Homem-Aranha, quando a sua acompanhante dizia:
- "Oh, Tomás anda embora".
E eu disse:
- "Mas afinal chamaste Tomás ou és o Homem-Aranha?"
E o Tomás acanhado parou e nem respondeu… Mas a acompanhante disse:
- "É o Homem-Aranha, mas é um homem-aranha murcãum".
E fomos embora a pensar o que é que a senhora queria dizer com aquilo… E a rir!
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
A minha vida dava um filme do Alfonso Cuarón
Estou a passar por uma fase da minha vida em que ponho tudo em causa. Afinal de contas o que é certo na minha vida? O Baltasar… Aconteça o que acontecer será sempre meu filho, e eu o pai dele!
Mas se mudar de profissão? Deixo de ser Engenheiro de Telecomunicações ou Programador… E se mudar de cidade? Aveiro deixa de ser a minha cidade… E se mudar de país? O português pode deixar de ser a minha língua… E se mudar…
Por isso mesmo por vezes tenho necessidade de ir até à Costa Nova, e andar na areia até muito próximo da rebentação. Para perceber porque é que ainda estou aqui! E tenho vontade de chorar quando olho para aquele mar, que todos os dias rebenta ali e não muda… Mas por outro lado, ninguém o consegue dominar!
Ontem fui até lá! E apeteceu-me tomar banho nu, mas estava muito frio e não tinha onde me limpar, se não... Aproveitei para apanhar um sol e lembrar-me que "Aconteça o que acontecer, a vida continua e o mar continuará a rebentar na praia!"
segunda-feira, outubro 02, 2006
A minha vida dava um filme do Hugh Hudson
Nem consigo lembrar-me da última vez que andei uma distância na minha bicicleta – a Vaynessa - digna de ser memorizada. A última que me lembro foi há cerca de um ano, numa tarde de sábado pelos campos do Vouga e sem subidas, mas com uma sandes de leitão em Angeja para temperar forças. Uma coisa é certa, há 4 meses que não faço nenhum exercício com regularidade, a não ser mudar fraldas e carregar os quase 7kg do Baltasar.
Tentei preparar-me para o evento. Andei uns quilómetros na semana passada. 25 na quarta-feira, 18 na quinta-feira e 12 no sábado. Depois de 25km que fiz na quarta-feira, na quinta-feira senti alguma dificuldade em sentar-me. Já não sabia o que era essa sensação há uma dezena de anos. Ontem quando me sentei na bicicleta ainda sentia alguma dor nas nádegas. É tempo a mais sem andar sentado naqueles bancos e peso a mais sobre os glúteos.
Às 9:20 foi dada a partida e seguimos durante 2km em grupo até à largada. Foi a confusão. Cerca de 400 ciclistas a tentarem passar em caminhos que, nalguns sítios, mal dava para estarem dois a par. "À esquerda", "à direita" e lá iam eles, todos cheios de pressa. Eu mantinha-me ali, no meu ritmo e à espera que me deixassem em paz, porque eu fui passear.
Mal entrámos na lama apercebi-me que não ia ser fácil. A bicicleta já não era branca, azul ou vermelha, era castanha e havia barulhos que não eram normais. A velocidade mais baixa não entrava com a lama a atrapalhar e as primeiras subidas tiveram que ser feitas a pé, a empurrar a bicicleta. Mas não podia ser de outra maneira porque nessas alturas aglomerava a horda de ciclistas mais lentos, ciclistas com pneus que deslizavam na lama ou ciclistas mais azarados com avarias.
Perdi os meus companheiros. Alguns conhecidos passavam e cumprimentavam. Eu seguia o meu ritmo, cada vez mais desejoso que passassem todos e ficasse para último. O civismo de alguns deixava muito a desejar. O Pisco esperou por mim e mais à frente encontrei-o. O Nuno teve um furo, juntámo-nos e seguimos os três em ritmo de passeio. Estradões largos, lama, água e bastante alcatrão, algumas das coisas que não agradam muito a um bttista.
Quase no final da temida "grande subida" estava o Ken e a Sue à minha espera (as fotos são deles), mas ainda estava a meio caminho. Pensando que eram 40km, como dizia no site, fiquei contente quando, no fim da descida, o conta-quilómetros marcava 30km. Mas seguiu-se a pior subida. Uma parede de escalada com lama, para quem já tinha tantos quilómetros em cima. Mas o ponto fulcral de desmoralização foi quando marcou 40km e estava ainda na ponte medieval perto de Lamas do Vouga, sabendo que Crastovães ficava lá em cima do monte, que naquela altura era já muito alto. Pensei em telefonar para a organização e dizer que não passava dali, porque só tinha pago para andar os 40km.
Mas subi tudo! Mesmo com as chatas das motos da organização a passar sem qualquer tipo de respeito pelos concorrentes e com a desmoralização de ver quatro tipos que tinham feito 80km, passarem por mim como se tivessem acabado de partir. Ainda tive um princípio de cãibras e caí por causa disso, num local em que um tipo disse estar lá o diabo, porque o levou a sair do caminho e quase cair. Acho que eu ainda conseguia estar melhor que ele, pois não vi o demo.
Cheguei ao fim, depois de 4h de bicicleta para fazer 47km. O meu objectivo era fazer os 40km antes das 13:00, uma vez que a partida era para ser às 9:00, o que daria uma média superior a 10km/h. Fiz os 40km às 12:30, quando partimos às 9:20 e fiz no final uma média próxima dos 11,5km/h. Bati o meu objectivo!
Hoje dói-me todos os músculos, tendões, articulações e ossos do meu corpo. Há partes do meu corpo que, ou não sabia que existiam, ou já não me lembrava que faziam parte da minha existência física. Não tive problemas cardíacos ou respiratórios, pois esses orgãos ainda são os que mais têm trabalhado, mas tudo isto mexeu com a moral. Mesmo sabendo que cumpri os meus objectivos sei que podia fazer muito melhor e como dizia o outro "does the mind rules the body or does the body rules the mind?" E no estado de cansaço físico que estou hoje é complicado pôr a mente a trabalhar.
Tenho que andar mais de bicicleta! Quando vamos dar outra volta?
Nota: Dedico esta crónica ao meu amigo Nuno Arroteia que se cortou numa mão, ao colocar a bicicleta no carro, quando se preparava para ir à Maratona. Apanhou 9 pontos e não pode participar.
quarta-feira, agosto 30, 2006
A minha vida dava um filme do Alfred Hitchcock (pt. 9)
Eram cerca das 18:15, quando fizemos o intervalo, e eu retribuí a chamada. Não devia, porque afinal de contas não tinha contraído nenhum empréstimo e estava a entrar em despesas por culpa da falta de rigor da Fodicis. A senhora não estava e atendeu-me um homem:
- "Por favor diga-me o seu número de contribuinte!" - pediu-me ele - "Aguarde um momento para poder aceder ao seu processo..."
Aguardei, embora renitente, porque afinal de contas era eu que estava a pagar a chamada.
- "Então diga-me Sr. Rui, quando é que pensa pagar aquilo as prestações em atraso?" - perguntou ele, com um tom meio ameaçador. Eu pensei, que das duas uma, ou ele não sabia nada do caso ou então estava-se a fazer de ignorante, uma vez que era das cobranças.
- "Como já expliquei à sua colega, não faço intenção nenhuma de pagar nem um tostão desse empréstimo, aliás porque não fui eu que o contraí..." - disse eu, tentando manter a calma – "... e porque ele só existe por um erro dos vossos serviços, porque se tivessem dois dedos de testa teriam visto que as cópias dos documentos apresentadas são falsas, aliás como já provei quando aí fui, às instalações da Fodicis, mostrar os meus documentos pessoais. E..."
Ao que fui interrompido, em tom mais agressivo:
- "Pelo facto de ter mostrado os seus documentos não prova que estes sejam falsos, porque os seus podem ser segundas vias." – disse ele, mostrando claramente que nunca tinha olhado nem para uns nem para os outros – "E acha que pelo facto de dizer, a um juiz, que estes documentos são falsos, ele lhe vai dar razão?" – continuou aumentando o tom da voz , porque eu tentei falar, e falando com ar jocoso. E continuou – "A Fodicis não é uma entidade de peritagem de identidades."
- "Mas posso falar?" – perguntei eu, já perdendo a calma e ficando algo alterado. E fiz um pequeno período de silêncio, para que ele me pudesse responder.
- "Sim! Diga..." – disse a voz do outro lado, algo alterado, também.
- "Eu estou a telefonar porque a sua colega me telefonou a averiguar se havia dados novos sobre os meus contactos com o Banco BETS no sentido de esta entidade confirmar o facto de a conta, naquele banco também ter sido aberta com os documentos falseados, uma vez que à data de abertura não era obrigatório a presença do cliente." – disse eu tentando acalmar-me – "Isto porque a sua colega disse que estava na eminência de divulgarem o meu nome ao Banco de Portugal..."
- "Oh, meu senhor! O seu nome há muito está no Banco de Portugal!" – disse ele, não aguentando mais estar calado, interrompendo-me e com um arzito de gozo. E continuou, em tom ameaçador – "O que está aqui em causa é se o senhor paga ou não o que deve?"
Nesse momento, a minha paciência tinha-se esgotado e a minha calma evaporado e apenas rematei:
- "Como já lhe disse não vou pagar nem um tostão desse empréstimo, por isso, se quiserem avançar com a sua cobrança coerciva, até agradeço, porque ainda tenho a receber uma indemnização por causa disso, incluindo uma parte por este telefonema. Boa Tarde!" E desliguei, mas não consegui voltar à sala de formação, sem apanhar uma golfada de ar e acalmar-me.
Quando cheguei a casa nessa noite, ainda algo alterado com a incompetência e prepotência do tipo, escrevi dois e-mails a duas amigas advogadas explicando a situação desde o início. Depois de uma breve troca de mensagens, com as duas, foi-me sugerido que expusesse o caso ao Banco de Portugal, a entidade reguladora do sector bancário, e fizesse uma queixa por violação de regras de segurança e diligência contra as duas instituições, a Fodicis e o Banco BETS.
A queixa seguiu há duas semanas, depois da recepção da notificação do Mistério Púbico dando conta do arquivamento dos autos do processo uma vez que a investigação não resultou em indícios suficientes sobre a identidade do autor do crime. No mesmo dia seguiu uma carta para a Fodicis, com a mesma notificação e expondo este episódico telefonema, que agora penso ter enterrado.
Mas ainda há um outro episódio para contar. Aguardem!
segunda-feira, abril 03, 2006
A minha vida dava um filme do Alfred Hitchcock (pt. 8)
Na data prevista, uns 10 minutos antes da hora prevista, dirijo-me ao edifício do Tribunal e apresento-me na recepção com a carta de notificação.
- "É naquela sala!" – aponta a senhora, para o canto mais escuro do edifício - "Pergunte à senhora que está no guichet à entrada."
Atravessei o hall e andei cerca de 20 metros para encontrar por detrás da porta daquela sala apontada, um outro guichet onde uma senhora, mais ou menos da mesma idade, me disse, depois de olhar para a notificação:
- "É ali naquele balcão!" – apontou para o fim da sala - "Pode sentar-se e aguardar!"
"Lindo! Não era mais simples usar umas placas?" – pensei eu e sentei-me. Reconheço uma cara conhecida, que se levanta da secretária e dirige-se a mim. Apresento-lhe a notificação e depois de consultar um colega, diz-me para aguardar.
No entretanto reparo numa rapariga gira, bem vestida, de pé e com um portátil a tiracolo que muda de perna de apoio como se estivesse impaciente. Aparentemente estava ali antes de mim... Mas um dos funcionários, mais novo e com ar de engatatão, vem à frente e pede-lhe desculpa, porque aparentemente ninguém a tinha visto. Como se fosse possível...
Nessa altura sou chamado pelo funcionário que está a tratar do "meu caso". Um homem de meia idade com ar de quem não gosta muito de ali estar, mas que poucas outras chances teve na vida. Sento-me junto à sua secretária para fazer o meu depoimento. E começa ele:
- "Explique-me lá o que se passou!" - e começo com a triste história do abuso de identidade (vide episódios anteriores desta série). E acrescento os dados novos sobre a conta bancária, que ainda não faziam parte do processo, porque não eram conhecidas à data da queixa.
- "O senhor sabe que isto não vai dar em nada? Não se preocupe, o que mais há por aí é casos desses e não dão em nada." – diz-me ele com ar de quem não está para se preocupar muito com o meu depoimento – "Tem a certeza que quer manter a queixa?"
- "Obviamente! Até que estejam as coisas resolvidas e a minha inocência seja provada a queixa mantém-se!" – digo eu convicto.
- "Ok! Então vamos escrever o seu depoimento!" - diz ele com algum tédio.
E pega num modelo de depoimento com o típico "No dia tantos do tal o depoente fulano de tal declarou que"... ao que acrescentou, mais à frente, conforme
- "A assinatura não é a minha, embora a escrita de alguns dos nomes sejam parecidos, como se tivesse tido acesso a parte da minha assinatura!" – eu depus.
Ao que ele escreveu:
- "o deopetne dclaruo equ a assiantrura no contratco não è a sua mas quie amdiety podasa ser mer portew semerlasmntrew" - parando de seguida a contemplar a sua escrita e voltou atrás ao início da frase e apagou e voltou a escrever palavra a palavra até que finalmente ficou:
- "o depoente declarou que a assinatura no contracto não è a sua mas que admite possa ser em porte semelhante."
E continuamos assim durante duas páginas de depoimento.
terça-feira, março 21, 2006
A minha vida dava um filme do Alfred Hitchcock (pt. 7)
- "Estou sim!?"
- "Estou sim, Sr. Rui Gonçalves? Daqui fala C. S. da Fodicis. Estou a telefonar para saber se tem alguma novidade do Banco BETS?"
- "Infelizmente não!" – respondo eu, com ar de seca.
- "Sabe Sr. Rui, que com a entrada de mais uma mensalidade para pagar os meus colegas das cobranças devem começar a colocar problemas e o caso pode avançar para o litigioso."
- "Compreendo, mas já fiz tudo o que posso fazer e o Banco BETS fez seguir a minha queixa e o caso está em investigação pelo Departamento de Auditoria do BSE. Infelizmente não sei de mais nada, mas vou tentar contactar o Banco BETS ainda esta semana para saber se há novos desenvolvimentos." – digo eu.
-"Ok, Sr. Rui! Vou aguardar que me diga alguma coisa!"
E desligámos.
sábado, março 18, 2006
A minha vida dava um filme do Alfred Hitchcock (pt. 6)
Assim, falei com um amigo cuja rede no LinkedIn incluía uma pessoa que trabalha no Banco BETS e pedi-lhe que me pusesse em contacto com a dita pessoa. Escrevi à pessoa em causa que de imediato entrou em contacto com a Direcção de Apoio a Clientes e em pouco tempo estava a enviar um fax, com a máxima urgência, a expor a situação, que seguiu ainda nesse mesmo dia também por correio azul para o Banco BETS. A 24 de Janeiro, o processo foi reencaminhado para o departamento de auditoria do Banco BSE, uma vez que o Banco BETS pertence ao mesmo grupo e é uma estrutura muito mais simples.
Umas duas semanas depois e como não obtinha nenhuma resposta nem do Bets nem do BSE e como a Sra. M.J.F. – o meu contacto no BETS – estava de férias, entrei em contacto com o Centro BETS no Porto. Telefonei...
- "Estou sim? Centro Banco BETS..." – responde-me uma menina do outro lado. E comecei a expor a situação:
- "Bom dia! O meu nome é Rui Gonçalves e há cerca de mês e meio fui confrontado com..." – E continuei com a história, e a meio, ouve-se um telemóvel a tocar do outro lado com a música do D'Artacão como toque. Continuei até que fui interrompido:
- "Desculpe! Mas tenho aqui outra chamada em espera..." – Interrompeu-me a menina para atender o telemóvel do D'Artacão. E ouve-se do outro lado:
- "Sim, Mãe! Já sei... Pois... Mas... 'Tá bem... Mãe, tenho aqui um senhor em linha e depois falamos, 'tá bem? 'Tá bem... Eu sei! Claro... Pois... Ok! Então vá! Até já!" – ao que voltou à minha chamada.
- "Peço desculpa!..." – ao que voltámos à minha história. Até que a um dado ponto perguntei:
- "Segundo sei não é possível abrir uma conta sem a presença física da pessoa, que quer abrir a conta, com os seus documentos. Como pode acontecer uma coisa destas?" – mas porque é que eu fui perguntar? Eu até já sabia a resposta, mas mesmo assim seguiu-se discurso institucional.
- "À altura que esta conta foi aberta, antes de Setembro de 2005, uma pessoa que desejasse abrir uma conta à ordem no Banco BETS teria que preencher um formulário na internet e a enviar por correio um contrato de abertura de conta com a instituição, previamente enviado pela instituição, acompanhada com uma cópia do bilhete de identidade, uma cópia o cartão de contribuinte e uma prova de residência que podia ser uma conta qualquer desde que a mesma estivesse em nome do 1º titular da conta a abrir. Porém depois dessa data a lei mudou e é preciso a presença física do titular da conta para que esta seja efectivamente aberta e disponibilizada. Ou seja, e como pode ver, esta conta foi aberta antes da mudança da lei sobre as instituições bancárias em Portugal." – E lá se foram mais dois ou três minutos de conversação, até que a menina conseguiu parar com a conversa que tinha mecanizada.
- "Ok! Minha senhora, de uma coisa eu tenho a certeza, não fui eu que abri essa conta e não fui eu que pedi o empréstimo em causa. A Fodicis anda a pressionar-me para apresentar uma declaração vossa para não avançar com a queixa ao Banco de Portugal. Se isso acontecer, eu estarei impedido de realizar uma série operações bancárias até que o caso seja resolvido. E quando o caso ficar resolvido, com a minha ilibação, tem consciência que irão existir pedidos de indemnização por isso? Pois o que eu quero é que nada disso aconteça, assim como a senhora, como funcionária do Banco Bets, deve querer. Por isso, minha senhora, tente saber como está o caso e o que devo dizer ao Fodicis."
- "Compreendo perfeitamente!" – disse ela – "Entrarei em contacto consigo assim que conseguir saber a informação que pretende, o mais tardar até ao fim da semana".
E ficámos por ali!
Apesar de me ter telefonado, de eu ter contactado a Sra. M.J.F. e de ter já falado com uma terceira pessoa, a resposta continua a ser a mesma "O que nos transmitem do lado do BSE é que vão entrar em contacto consigo." E que "está a ser preparada uma carta que segundo o BETS será enviada para o cliente ainda esta semana. Não dá para saber pormenores porque a auditoria não costuma dar esse tipo de informação."
E estamos nisto desde 24 de Janeiro...
(Talvez não acreditem mas o Ministério Público já fez mais que o BSE, mas esperem pelo próximo episódio da série.)
quarta-feira, março 01, 2006
A minha vida dava um filme do Tony Scott
Voltei às 15:00. Uns 10m depois passa um carro e o ocupante, um velho conhecido da universidade, olha para o armazém como se procurasse algo. Estacionou! Era o tal engenheiro... Que afinal vinha instalar o software de suporte à VPN (virtual private network) mas que não o podia fazer porque ali não havia nenhum PC, nem tão pouco uma ligação à internet (nesta altura devia de tocar, como banda sonora, o tema "Era uma casa muito engraçada, não tinha tecto não tinha nada, ninguém vivia nela não, porque na casa não tinha chão, ...").
Nisto toca de novo o meu telemóvel. O número não está disponível. Atendo pois esperava uma chamada. E oiço:
- "Escuse me! Is this Rui Gonçalves phone number?" – diz uma voz feminina do outro lado, com um sotaque britânico.
- "Yes, it's me!" – respondo, sem saber bem o que dizer. E muito despachada, a senhora do outro lado, diz:
- "This is from an IT consulting company, I found your CV on the internet and I am phoning to wonder if you are considering prospecting jobs in UK."
Por momentos penso no telefonema da tarde anterior... "Será a mesma empresa? Será alguém que leu o meu blog e resolveu gozar comigo?"
- "Not at the moment..." – gaguejei, enquanto pensava o que iria dizer a seguir – "... but I might consider it in a few months time." – disse considerando não desperdiçar a coisa completamente (nunca se sabe).
- "Do you mind if I keep your data on our files and phone you back in a few months?" – perguntou a tipa.
- "No! Not at all!"
- "Thank you! Get back to you soon!" – disse antes de desligar.
Olhei para o meu ex-colega e sem saber o que dizer...
terça-feira, fevereiro 28, 2006
A minha vida dava um filme do Brett Ratner
Do outro lado oiço uma senhora a falar em inglês com um sotaque carregado, muito próximo do indiano, mas provavelmente não o era:
- "Sorry, this is from a consulting company. Is this the phone of Rui Manuel?"
- "Yes!" – disse eu a pensar quem seria que me tentava enganar àquela hora num feriado. Só podia ser de Inglaterra, porque lá não era feriado... A Gisela? Decidi colaborar na brincadeira.
- "Mr. Rui Manuel, I found your CV on the internet and I am phoning to see if you are considering a job in UK." – continuou a senhora do outro lado.
Bem, não me parece brincadeira. Aliás porque a Gisela não conseguia imitar tão bem aquele sotaque.
- "No! Not at the moment! Thank you!" – disse eu.
- "Ok! I just decide to phone to check it out before sending you any job proposition. Thank you anyway." – e desligou.
Pousei o telefone e continuei a conduzir de volta a casa, pensando o que aconteceria se tivesse dito que sim...
quinta-feira, fevereiro 16, 2006
A minha vida dava um filme do Alfred Hitchcock (pt. 5)
- "Boa tarde! Daqui fala o ENGENHEIRO Rui Gonçalves que tenho aí um caso pendente de um empréstimo que nunca realizei!" – disse eu, testando até que ponto um título ainda é importante neste país.
- "Boa tarde! Sr... Sr. Engenhei... Sr. Rui Gonçalves..." – gaguejou – "o que se passa é que lhe queria comunicar que o dossiê passará a partir de amanhã para as mãos do departamento de pré-contencioso e que portanto deixará de estar nas minhas mãos!"
- "Ok! Eu também lhe queria comunicar que o Banco BETS, como deve compreender, ainda está em investigação e por isso ainda não tenho mais dados para lhe fornecer." – disse eu.
- "Obrigado, Sr. Rui, agradeço-lhe que assim que tiver mais dados a fornecer à Fodicis que o faça o mais rapidamente possível."
E ficámos por ali...
terça-feira, janeiro 24, 2006
A minha vida dava um filme do Alfred Hitchcock (pt. 4)
- "Estou sim!?"
- "Estou sim, Sr. Rui Gonçalves? Daqui fala C. S. da Fodicis..."
- "Sim?" – respondi, disparando o meu batimento cardíaco prevendo o que viria a seguir.
- "O departamento de investigação da Fodicis depois de uma pequena análise ao seu processo devolveu-o ao departamento de cobranças, uma vez que a conta para onde foi efectuada a transferência da quantia relativa ao empréstimo aqui contraído, está em nome de Rui Manuel Carneiro Gonçalves."
Acalmei! Sentei-me e ela continuou:
- "Pelo que agradecíamos que nos enviasse uma declaração do banco em como não é a pessoa que abriu essa conta! E gostaríamos de ter isso até ao fim desta semana..."
"Ok!" – pensei eu – "Vocês demoram dois meses a contactarem-me por um empréstimo que não fiz, um mês para verem que afinal transferiram o dinheiro para uma conta que não abri e agora querem que o banco demore uma semana a passar uma declaração a ilibar-me de qualquer culpa no caso!"
- "Percebi, minha senhora!" – respondi, não tendo mais nada para dizer no momento.
Desliguei!
sexta-feira, dezembro 23, 2005
A minha vida dava um filme do Alfred Hitchcock (pt. 3)
- "Aguarde um momento, por favor!" – sem conseguir o que dizem do outro lado.
Quando finalmente consigo atender oiço a voz da senhora da Fodicis (N.R.: Nome fictício) que está responsável pelo "meu" processo do empréstimo que nunca fiz:
- "Estou sim? Sr. Rui Gonçalves? Recepcionámos a sua exposição, porém eu tinha lhe pedido para anexar a cópia da queixa-crime que efectuou na polícia" – disse ela, bastante mais simpática.
- "Eu enviei a notificação que me foi dada pela polícia!"
- "Pois mas o Departamento Jurídico da Fodicis necessita da cópia da queixa-crime e não a notificação, Sr. Rui."
- "Peço imensa desculpa, mas isso foi tudo o que me foi dado pela polícia, mas amanhã eu irei à polícia pedir a cópia da queixa-crime."
- "Obrigado, Sr. Rui. E boa noite!"
- "Boa noite!" – grunhi entre dentes e desliguei.
Hoje de manhã dirijo-me à esquadra de polícia onde efectuei a denúncia e pergunto ao polícia se seria possível facultar-me uma cópia da queixa-crime que efectuei na segunda-feira. A resposta foi simples "Nós não fornecemos nenhuma cópia dessa espécie" - disse-me o polícia simpaticamente - "mas dirija-se à nova esquadra e aos serviços de investigação criminal e eles pode ser que lhe facultem alguma coisa desse género".
Atravesso a cidade em ante-véspera de Natal, com um trânsito caótico e chego à nova esquadra, cuja existência desconhecia e cuja existência preferia continuar a desconhecer.
Entro e explico a situação. Nisto entra um guarda da GNR. O Sr. PSP interrompe-me, pedindo desculpa e dirigindo-se ao soldado que acabou de chegar, pergunta:
- "Que deseja?"
- "Era shó pra intregar eishto! É do shenhore cumandante!" – diz o Sr. GNR esticando uma prenda de Natal.
Após a saída do Sr. GNR, volto a explicar a minha situação. Resposta: "Nós não fornecemos nenhuma cópia dessa espécie" - disse-me o polícia - "mas dirija-se aos serviços de investigação criminal, na primeira porta à direita naquele corredor, e eles pode ser que lhe facultem alguma coisa desse género".
Entro na sala dos serviços de investigação criminal, onde estão três mulheres. Uma, de frente, no computador a digitar alguma coisa, outra com um monte de papéis e a terceira, de costas, na máquina de fotocópias.
- "Bom dia!" – digo timidamente. Nada muda na sala, até que um minuto depois dão pela minha presença. Explico a situação e a senhora que estava com o molho de papéis levanta a cabeça e diz:
- "Os senhores da Fodicis sabem muito bem que nós aqui não podemos fornecer a cópia da queixa-crime, porque uma vez feita a denúncia isso entra em segredo de justiça!" – disse ela com um tom algo gelado – "Porém posso lhe passar uma declaração dizendo que a fez e em que termos a fez!"
- "Ok! Isso deve servir!" – disse eu ainda mais intimidado.
- "Qual é o número da sua queixa?" – diz ela com um tom semelhante ao da minha professora primária quando fazíamos asneiras.
E ali estive uns 10 minutos enquanto escrevia a declaração no computador. Quando acabou levantou-se e passou por mim, já esboçando um sorriso e foi pedir a assinatura do comandante.
A meio da tarde telefono para a Fodicis:
- "Fodicis ! Bom dia!" - dizem do outro lado.
- "Boa tarde! Queria falar com a senhora C. S., se faz favor!" – disse eu.
- "É cliente da Fodicis?"
- "Não sou cliente, mas infelizmente parece que sou"- disse eu. Ao que seguiu o pedido do número de contribuinte e a posterior passagem da chamada para a pessoa que está a gerir o "meu" processo.
- "Estou sim? Sr. Rui." – diz ela, toda simpática.
- "Boa tarde! Eu fui à polícia e disseram-me que os senhores já deviam de saber que eles não fornecem a cópia da queixa-crime por estar em segredo de justiça. Mas passaram-me uma declaração em como a apresentei e em que moldes o fiz."
Resposta:
- "Mas era mesmo isso que eu tinha falado!" – disse ela, enquanto eu pensava para comigo "Óbvio!".
A minha vida dava um filme do Alfred Hitchcock (pt. 2)
- "Estou sim? Sr. Rui Gonçalves?" – disse ela num tom bastante mais cordial.
- "Sim! Sou eu!" – digo eu muito seco.
- "Gostava de lhe pedir desculpa pelo facto de não o ter podido receber na sexta-feira quando aqui veio às nossas instalações."
- "Ok!" – digo eu num tom ainda mais seco, pensado no facto de que nunca me tinha informado que nesse dia fechavam mais cedo porque havia festa de Natal da empresa, e no facto de 13 minutos depois das 17:00 (a hora de fecho extraordinária) já não estar no local de trabalho para me "receber".
- "E gostaria também de lhe pedir que me enviasse anexa à exposição que vai fazer a cópia da queixa-crime que vai efectuar na polícia."
- "Ok!" – grunhi.
- "Pronto! Então agradeço-lhe que me envie essa informação o mais tardar até sexta-feira. Obrigado e boa tarde." – disse já num tom mais exigente.
- "Boa tarde!" - E desliguei!
quinta-feira, dezembro 22, 2005
A minha vida dava um filme do Alfred Hitchcock (pt. 1)
Atendi! Oiço do outro lado:
- "Estou sim? Estou a falar com o Sr. Rui Manuel Carneiro Gonçalves?"
Desconfiei! Quando me chamam pelo nome completo é porque não me conhecem.
- "Sim, sou eu!"
- "Daqui fala da Fodicis (N.R.:nome fictício)..." – disse a voz feminina. Eu pensando que era alguma publicidade daquelas compre-este-aspirador-e-damos-lhe-três-dias-de-férias-na-gronelândia, disse logo:
- "Eu não tenho nada a ver com a Fodicis!"
- "Não tem? Mas o seu bilhete de identidade não é o 6231568?"
- "Sim!"
- "Mora na R. Cais do Albói, 54 em Aveiro."
- "Não! Moro em Aveiro mas desconheço essa morada!"
- "É que temos aqui um crédito feito neste nome. E o seu número de contribuinte é o 612361812?"
- "Sim! Mas para que banco foi feita a transferência?" – disse eu.
- "Espere um pouco... Banco Bets!"
A conversa continuou com algumas trocas de informações, mas sem que a tipa do outro lado baixasse os ataques como se eu fosse realmente o tipo que lhe pediu 6000 euros. Falei com um amigo advogado e embora ele achasse que não era minha obrigação reclamar a minha inocência, mas a da Fodicis de provar a minha culpa, resolvi ir a Lisboa limpar o meu nome.
No dia seguinte, depois de almoço, fui para Lisboa. Depois de duas horas e pouco de viagem, algumas filas e muita confusão, cheguei ao edifício da Fodicis em frente ao Museu Calouste Gulbenkian. Entro e informam-me que naquele dia excepcionalmente tinham fechado às 17:00 (eram 17:13), quando a tipa do outro lado da chamada me tinha dito que fechava às 18:00 e depois de eu lhe ter garantido que lá ia naquele dia.
Começaram-me a subir os calores. E não fosse a prontidão em arranjarem alguém que me atendesse e estava pronto a perder a minha boa vontade toda de limpar o meu nome e lhes poupar o trabalho de me acusarem de algo que não fiz. Em pouco tempo estava com a cópia do bilhete de identidade, do cartão de contribuinte e o contrato em meu poder, tudo o que precisava para apresentar queixa na polícia.
É impressionante como se transfere 6000 euros para a conta de alguém baseado na fotocópia de um bilhete de identidade de alguém que nasceu em Lourenço Marques, uma cidade que já não tem essa designação desde há 30 anos e com a validade de 10 anos, algo que só é possível a quem tem mais de 35 anos, e à data da emissão do mesmo documento (09/01/2004) alguém nascido em 22/08/1969 teria apenas 34 anos. Para além de não falar que a fotografia é no mínimo irreconhecível (e em nada se parece comigo). E o cartão de contribuinte nota-se que o número foi lá colocado, porque está desalinhado com o resto do texto do mesmo. Depois admiram-se...
Obviamente que os dados foram sacados todos do meu CV que está online e que já nem sequer inclui aqueles dados, mas cujo conteúdo do site ainda não tive tempo de actualizar.
Passou o fim-de-semana e na segunda-feira de manhã, mal me levantei dirigi-me à esquadra de polícia de Aveiro. Expliquei a situação! O homem ficou a olhar para mim:
- "Mas fazem empréstimos assim? Assim qualquer um os pode enganar!"
Estive lá uma hora e tal para que o Sr. PSP me fizesse um texto que conseguisse explicar o sucedido, ou o que achamos que terá acontecido. A queixa seguiu para a polícia judiciária e eu mandei uma cópia para a Fodicis.
quinta-feira, setembro 22, 2005
A minha vida dava um filme do Tim Burton
Tocou o telefone! De repente oiço alguém a subir as escadas, mas adopto a reacção da senhora, no outro banco, como se fosse o procedimento normal de quem ali espera por algo e mantenho os olhos naquele artigo sobre os atentados ecológicos em Portugal. Um artigo sem grande interesse e cheio de lugares comuns, mas informativo para quem não vive neste mundo e compra a Visão.
No entretanto entram mais duas pessoas. Toca a campainha, mas quem devia de atender, está a atender um telefonema. Sobem as escadas e olham em volta, como se houvesse muito para ver. Entram numa das salas, em frente a mim, e vão-se embora. Eu conheci o tipo, que acompanhava uma jovem borbulhenta nesta rápida visita às instalações, enquanto a senhora lê o jornal, eu a Visão e o outro atende o telefone. Era um amigo de uma amiga, a quem fui levar uns CDs há umas semanas, e que foi em tempos patrão de um outro amigo meu. Cumprimentámo-nos timidamente, quando levantei os olhos da revista.
Depois de findo o telefonema, o homem, de barba grisalha e sotaque, pergunta-me, simpaticamente, o que procurava eu ali. Respondi-lhe que vinha para uma consulta de acupunctura. "Ok! Espere um pouco aqui" – apontando para a porta fechada, em frente – "Ele está neste momento a atender outro cliente". E continuei a ler os atentados ecológicos em Portugal.
A porta, à minha frente, abre-se! Sai de lá um tipo com 1,80m e com um volumetria que ocupou a improvisada sala de espera ali no vão de escada. Era o companheiro da senhora do jornal, que pela primeira vez levantou os olhos do mesmo. Falaram qualquer coisa e foram-se embora.
Nisto, o tipo de bata branca e luva de plástico na mão direita, diz, olhando na minha direcção "Rui? Pode entrar!". O acupunctor é brasileiro, preto (ou marron, como ele diz "No Brasiú preto é assim marron..."), com um cabelo lambido para trás, com reflexos meios cobreados, com alguma dificuldade em abrir os olhos, mas com um lindo e aberto sorriso que enche a sala, decorada com mobiliário de consultório com 30 anos.
Deito-me na marquesa e ele liga o almofada vibratória para eu relaxar. Não que estivesse nervoso, mas algo tenso! Já dei sangue e fiz algumas análises, mas era a primeira vez que me iam espetar agulhas com fins terapêuticos. Começou por me analisar na orelha, com um medidor de continuidade eléctrica, quais os órgãos, ou sintomas, que eu precisava de ver melhorados. Intestinos, pulmões e a ansiedade!
A conversa foi desenrolando, enquanto me espetava as agulhas nos meridianos que regulavam as energias que os afectavam. Para balançar o Yin e o Yang, porque eu tenho Yang a mais, disse ele. Uma das agulhas, no cotovelo do braço direito, paralisava-me completamente os movimentos e até senti a mão dormente, mas as das pernas e dos pés nem as senti. Acho que estava algo tenso, por ser final de um dia de trabalho, e como não conseguia ter uma posição confortável dos braços, fazia alguma força. Ou então, o meu lado direito (o Yang) estava a resentir-se.
Conversámos das vantagens de viver em Portugal e dos males do Brasil. De racismo e de extraterrestres. Enquanto as agulhas foram fazendo o seu serviço no meu corpo e enquanto me espetava umas pequenas (quase invisíveis) agulhas na orelha direita. E assim ando há uma semana, com agulhas na orelha! Umas vezes dói mais uma ou outra, mas neste momento só me dói a que está no meridiano do intestino grosso.
E ando com agulhas na bolsa, porque amanhã volto lá outra vez.
