sábado, agosto 07, 2004

: : : 1-big-O [v3.0]

Em Agosto de 2000 a Gilda Bettencourt, que trabalhava no ICEP de São Francisco pediu-me para a ajudar numa tradução. Recebi $50 pelo trabalho e há umas semanas recebi a cópia do catálogo que ajudei a traduzir.

Southern Exposure

É um catálogo de uma exposição que ocorreu em 5 galerias - uma em São Francisco, EUA, outra em Toronto, Canadá, outra em Christchurch, na Nova Zelândia, outra em Lisboa - Galeria Zé dos Bois - e outra em Taipei na China. A exposição chamava-se "Sister Spaces" e teve lugar de 8 de Setembro a 28 de Outubro de 2000.

Portuguese Translation Gilda Bettencourt with Rui Gonçalves, Rita Silvério Machado, Nuno Moura and Mónica Ferreira Pinto

A mim calhou-me a tradução relativa à galeria YYZ Artists’ Outlet em Toronto, Canadá, começada pela Gilda e que eu corrigi.

"Eram arrivistas impertinentes nos anos 70 e 80, cheios até a borda com iconoclasmo criativo, irreverência, e comunalismo anárquico. Forneceram um ponto de partida para uma geração de artistas que não queriam vender as suas obras e muito menos queriam estabelecer uma conversa de jantar interessante com coleccionadores aborrecidos e milionários. Mas hoje, muitos dos espaços geridos por artistas estão a tornar-se nos sentinelas grisalhos duma alternativa institucionalizada. Presos a comissões e a enfrentar responsabilidades administrativas consideráveis, os espaços dirigidos por artistas têm de trabalhar mais que nunca para manter as suas concessões, e a sua reputação de inovadores está a ser posta em causa por uma série de galerias comerciais e salas privadas que têm vindo a emergir.

Quando a YYZ Artists’ Outlet foi fundada em 1979, uma primeira fornada de espaços alternativos em Toronto encontrava-se numa fase de autodestruição devido ao arruinar de interesses colectivos, ao aumento de responsabilidades burocráticas e administrativas, à crítica governamental, e a um mal-estar teórico em geral (leia-se: pós-modernismo) – a excepção digna de nota é A Space, que ainda hoje está em operação. Os fundadores, da YYZ, foram um grupo de graduados da escola de arte, que não tinham outra ambição sem ser a de criar um espaço onde podiam mostrar as suas obras. Como afirma Kim Todd, a primeira gerente da YYZ, “Não queremos adoptar a história de ninguém.”

Os fundadores da YYZ nunca redigiram um mandato, nem definição da missão, nem se declaram opositores a qualquer instituição rival. Eram simplesmente algo mais, qualquer coisa que surgiu de um longo desejo por algo que ainda não existia. Ser “alternativo” implica manter uma relação ou estar em diálogo com uma outra entidade mais convencional, mas, no Canadá, nunca houve uma grande tradição de institucionalização artística para que o alternativo pudesse ser construído em oposição, como aconteceu nos Estados Unidos e na Europa.

O mandato corrente da YYZ é uma formação posterior, por assim dizer, criado para esboçar explicitamente as paixões, compromissos, e actividades. A galeria dedica-se a três áreas de programação – as artes visuais, as artes temporais, e a publicação – os quais estão sujeitos à mudança. A programação das artes temporais foram introduzidas para o inventário de exibições em 1987 para acomodar e encorajar o número crescente de artistas que trabalhava em cinema, vídeo, ou na representação. Em discussões recentes entre os membros do conselho discute-se a manutenção de uma distinção entre as artes visuais e temporais, numa altura em que cada vez mais os artista criam obras multidisciplinares. Em 1998, a YYZ publicou a sua primeira colecção de escritos de crítica, como consequência de uma série de conferências muito bem sucedidas e de debates, por si produzidos. A secção de publicações, YYZ Books, agora bem estabelecida, mantém o compromisso adoptado pela galeria em discursar.

Dentro do seu ensaio para o catálogo do décimo aniversário da galeria, Decalog, Barbara Fischer descreveu a YYZ como uma organização que “navegou numa rota rizomática, valendo-se das energias e dos interesses de uma comunidade baseada em Toronto.” Os membros do conselho, com quem tenho mantido contacto durante os anos, são da mesma opinião: mostrar obras da arte, as quais acham provocantes, será sempre a prioridade. A estrutura do conselho convocatório garante que o conceito do termo “provocante” nunca será estática.

Susan Kealey, uma artista, escritora, e participante há muito tempo na cultura dirigida pelos artistas, entrou no conselho da YYZ em 1989. Em 1999, concluiu num artigo da revista Fuse: “Parece inútil discutir se os CDPAs [Centros Dirigidos Pelos Artistas] continuam alternativos, porque é claro que se tornaram instituições, apesar da programação se distinguir da dos museus e galerias públicas. Mas os CDPA ainda conseguem exercer a diferença – simplesmente porque são dirigidos por artistas.”

Kealey tem razão ao afirmar que, num contexto canadiano, a discussão “alternativa” acerca dos espaços dirigidos por artistas é agora irrelevante. Alternativo tem definitivamente servido como um adjectivo útil, como uma espécie de símbolo de estenografia que se refere a uma história particular ou a assinalar um género de envolvimento com a arte que difere da moda corrente. Kealey também tem razão em reconhecer que os espaços dirigidos por artistas – pelo menos em Toronto – já são instituições. A pergunta mais interessante de hoje, na minha opinião, não é “Será que os espaços dirigidos por artistas são alternativos?”, mas “Será que as instituições podem ser relevantes?” O desafio é claro, e é um dos que a YYZ enfrenta directamente. A galeria pode mostrar, e mostra, as obras que seriam censurados na maioria dos museus e galerias públicas. Como instituições, a YYZ pode conceder um certo “selo de homologação” aos artistas e às suas obras, uma legitimidade que de outra maneira poderia eludi-los por muitos anos. A YYZ ainda paga, aos artistas, os honorários mais altos de todas as galerias alternativas no Canadá (por um exposição individual um artista recebe $1,200 canadianos), pondo a par as artes temporais com as artes visuais, e os artistas seniores com aqueles que neste momento estão emergir.

Nos dias de hoje, e face à diminuição dos fundos governamentais, os espaços “alternativos” de Toronto – ainda que não pretendam o rótulo – tendem a ser galerias comerciais do tipo “faça você mesmo” e com orçamentos limitados. Os artistas estão se a lançar nesta dança de comercialismo, com talvez o mesmo idealismo engenhoso que marcou a formação dos primeiros espaços dirigidos por artistas há vinte anos atrás. Porém, este movimento não impede a existência continuada dos espaços alternativos. Iniciativas dirigidos pelos artistas que recebem doações de fundos públicos continuam a ser necessários para a sobrevivência e vitalidade da cultura canadiana em todas as suas variações e permutações. A YYZ agora tem 21 anos de história para sobrepujar e para assegurar. O conselho e o pessoal da galeria acreditam que é importante reconhecer esta história da arte que programamos, dos livros que publicamos, e dos eventos que organizamos.

Espaços dirigidos por artistas atraem pessoas com uma paixão pela arte contemporânea e com um compromisso teimoso com o discurso crítico. Num mundo em que tudo está demasiado cínico, tímido, e niilista, isso será tudo o que de “alternativo” alguém poderia esperar.
Eram arrivistas impertinentes nos anos 70 e 80, cheios até a borda com iconoclasmo criativo, irreverência, e comunalismo anárquico. Forneceram um ponto de partida para uma geração de artistas que não queriam vender as suas obras e muito menos queriam estabelecer uma conversa de jantar interessante com coleccionadores aborrecidos e milionários. Mas hoje, muitos dos espaços geridos por artistas estão a tornar-se nos sentinelas grisalhos duma alternativa institucionalizada. Presos a comissões e a enfrentar responsabilidades administrativas consideráveis, os espaços dirigidos por artistas têm de trabalhar mais que nunca para manter as suas concessões, e a sua reputação de inovadores está a ser posta em causa por uma série de galerias comerciais e salas privadas que têm vindo a emergir.

Quando a YYZ Artists’ Outlet foi fundada em 1979, uma primeira fornada de espaços alternativos em Toronto encontrava-se numa fase de autodestruição devido ao arruinar de interesses colectivos, ao aumento de responsabilidades burocráticas e administrativas, à crítica governamental, e a um mal-estar teórico em geral (leia-se: pós-modernismo) – a excepção digna de nota é A Space, que ainda hoje está em operação. Os fundadores, da YYZ, foram um grupo de graduados da escola de arte, que não tinham outra ambição sem ser a de criar um espaço onde podiam mostrar as suas obras. Como afirma Kim Todd, a primeira gerente da YYZ, “Não queremos adoptar a história de ninguém.”

Os fundadores da YYZ nunca redigiram um mandato, nem definição da missão, nem se declaram opositores a qualquer instituição rival. Eram simplesmente algo mais, qualquer coisa que surgiu de um longo desejo por algo que ainda não existia. Ser “alternativo” implica manter uma relação ou estar em diálogo com uma outra entidade mais convencional, mas, no Canadá, nunca houve uma grande tradição de institucionalização artística para que o alternativo pudesse ser construído em oposição, como aconteceu nos Estados Unidos e na Europa.

O mandato corrente da YYZ é uma formação posterior, por assim dizer, criado para esboçar explicitamente as paixões, compromissos, e actividades. A galeria dedica-se a três áreas de programação – as artes visuais, as artes temporais, e a publicação – os quais estão sujeitos à mudança. A programação das artes temporais foram introduzidas para o inventário de exibições em 1987 para acomodar e encorajar o número crescente de artistas que trabalhava em cinema, vídeo, ou na representação. Em discussões recentes entre os membros do conselho discute-se a manutenção de uma distinção entre as artes visuais e temporais, numa altura em que cada vez mais os artista criam obras multidisciplinares. Em 1998, a YYZ publicou a sua primeira colecção de escritos de crítica, como consequência de uma série de conferências muito bem sucedidas e de debates, por si produzidos. A secção de publicações, YYZ Books, agora bem estabelecida, mantém o compromisso adoptado pela galeria em discursar.

Dentro do seu ensaio para o catálogo do décimo aniversário da galeria, Decalog, Barbara Fischer descreveu a YYZ como uma organização que “navegou numa rota rizomática, valendo-se das energias e dos interesses de uma comunidade baseada em Toronto.” Os membros do conselho, com quem tenho mantido contacto durante os anos, são da mesma opinião: mostrar obras da arte, as quais acham provocantes, será sempre a prioridade. A estrutura do conselho convocatório garante que o conceito do termo “provocante” nunca será estática.

Susan Kealey, uma artista, escritora, e participante há muito tempo na cultura dirigida pelos artistas, entrou no conselho da YYZ em 1989. Em 1999, concluiu num artigo da revista Fuse: “Parece inútil discutir se os CDPAs [Centros Dirigidos Pelos Artistas] continuam alternativos, porque é claro que se tornaram instituições, apesar da programação se distinguir da dos museus e galerias públicas. Mas os CDPA ainda conseguem exercer a diferença – simplesmente porque são dirigidos por artistas.”

Kealey tem razão ao afirmar que, num contexto canadiano, a discussão “alternativa” acerca dos espaços dirigidos por artistas é agora irrelevante. Alternativo tem definitivamente servido como um adjectivo útil, como uma espécie de símbolo de estenografia que se refere a uma história particular ou a assinalar um género de envolvimento com a arte que difere da moda corrente. Kealey também tem razão em reconhecer que os espaços dirigidos por artistas – pelo menos em Toronto – já são instituições. A pergunta mais interessante de hoje, na minha opinião, não é “Será que os espaços dirigidos por artistas são alternativos?”, mas “Será que as instituições podem ser relevantes?” O desafio é claro, e é um dos que a YYZ enfrenta directamente. A galeria pode mostrar, e mostra, as obras que seriam censurados na maioria dos museus e galerias públicas. Como instituições, a YYZ pode conceder um certo “selo de homologação” aos artistas e às suas obras, uma legitimidade que de outra maneira poderia eludi-los por muitos anos. A YYZ ainda paga, aos artistas, os honorários mais altos de todas as galerias alternativas no Canadá (por um exposição individual um artista recebe $1,200 canadianos), pondo a par as artes temporais com as artes visuais, e os artistas seniores com aqueles que neste momento estão emergir.

Nos dias de hoje, e face à diminuição dos fundos governamentais, os espaços “alternativos” de Toronto – ainda que não pretendam o rótulo – tendem a ser galerias comerciais do tipo “faça você mesmo” e com orçamentos limitados. Os artistas estão se a lançar nesta dança de comercialismo, com talvez o mesmo idealismo engenhoso que marcou a formação dos primeiros espaços dirigidos por artistas há vinte anos atrás. Porém, este movimento não impede a existência continuada dos espaços alternativos. Iniciativas dirigidos pelos artistas que recebem doações de fundos públicos continuam a ser necessários para a sobrevivência e vitalidade da cultura canadiana em todas as suas variações e permutações. A YYZ agora tem 21 anos de história para sobrepujar e para assegurar. O conselho e o pessoal da galeria acreditam que é importante reconhecer esta história da arte que programamos, dos livros que publicamos, e dos eventos que organizamos.

Espaços dirigidos por artistas atraem pessoas com uma paixão pela arte contemporânea e com um compromisso teimoso com o discurso crítico. Num mundo em que tudo está demasiado cínico, tímido, e niilista, isso será tudo o que de “alternativo” alguém poderia esperar.
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